Quando Vir Uma Zebra, é Zebra!!

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Ciguatera – Uma Intoxicação Alimentar Cascuda. E Rara. Que Pode Ser Prevenida!!

Caros, recentemente fui consultado sobre um paciente com suspeita de Doença Descompressiva, que estava no Caribe. Devido aos perfis de baixa profundidade dos mergulhos, dei minha opinião à distância, que não me parecia um caso de DD. Enfim, dias depois fui contactado pelo próprio paciente, que já estava no Brasil, sendo tratado como DD, fazendo sessões de câmara hiperbárica.

Já na conversa telefônica, algumas coisas me chamavam a atenção para outro diagnóstico. Dores que mudavam de região, pruridos em áreas pouco afetadas pela DD, e principalmente o fato do paciente não ter melhorado com a recompressão.

Além disto, o paciente havia apresentado um episódio de diarreia por alguns dias, previamente ao quadro atual. Ai me veio o click, que confirmei numa consulta presencial, com mais detalhes.

Eu estava vendo uma zebra em plena SP. Por que zebra? Normalmente você não vê esta zebra por aqui. Mas se está vendo zebra, é zebra.

A intoxicação por ciguatera é uma doença rara que ocorre devido à ingestão de certos peixes tropicais e subtropicais contaminados. Quando ingerida, a toxina (ciguatoxina), que está presente em níveis elevados nesses peixes contaminados, pode afetar os sistemas digestivo, muscular e / ou neurológico. Mais de 400 espécies diferentes de peixes foram implicadas como causa de envenenamento por ciguatera. Normalmente os mais implicados são predadores maiores nos recifes, que vão acumulando a toxina, como barracuda e garoupa. O peixe não adoece, e a contaminação ocorre em certas épocas do ano, em certas regiões do planeta. No Brasil não há relato de casos adquiridos aqui.

Sinais e Sintomas
Os sintomas da intoxicação aguda por ciguatera podem começar 30 minutos após a ingestão de peixes contaminados. Os sintomas iniciais podem incluir coceira, formigamento e dormência nos lábios, língua, mãos e / ou pés. Outros sintomas durante as primeiras seis a 17 horas são cólicas abdominais, náuseas, vômitos, diarreia e / ou erupção cutânea vermelha (prurido). Calafrios, reversão de temperatura quente e fria, fraqueza generalizada, inquietação, tontura, respiração ofegante, visão turva, sensibilidade anormal à luz (fotofobia), dores musculares (mialgias) e / ou dores nas articulações (artralgias) também podem ocorrer.

Os sintomas iniciais geralmente desaparecem, em poucos dias. No entanto, os sintomas neurológicos podem continuar por vários meses. Alguns indivíduos afetados apresentam pressão arterial anormalmente baixa ao se levantar da posição sentada (hipotensão ortostática). Em casos graves, muito raros, pode haver rápida progressão para dificuldades respiratórias (dispneia) e paralisia muscular. Complicações com risco de vida (ou seja, batimento cardíaco anormalmente lento, parada respiratória, convulsões ou coma) podem ocorrer nesses casos graves em 24 horas. Mas depois da fase aguda, são raríssimas.

Não existe tratamento específico, e a ciguatera pode cursar por semanas ou meses. Alguns pacientes tem recrudescimento dos sintomas ao ingerir carne de peixe (mesmo não contaminada).

O que se pode fazer é dar tratamento de suporte e apoio ao paciente, medicação para os sintomas e aguardar a eliminação da ciguatoxina. É uma condição debilitante, e o paciente precisa ser acompanhado de perto.

Obviamente o tema é extenso. Eu sabia da condição porque falava do assunto nas aulas de medicina do mergulho, no tema “intoxicações por seres aquáticos”. Mas como a condição não prevalece no Brasil, não esperava encontrar a zebra. Contei com a ajuda do Dr Vidal Haddad Junior, especialista no assunto, e do Dr João Roberto Sala Domingues, neurologista, que vem ajudando no acompanhamento do paciente, um cara muito legal, que em breve irá se livrar da doença.

Lições deste papo:
1. Sempre que viajar para um local novo, pesquise as condições por lá. Certas regiões do Caribe, E outras do planeta tem incidência razoável de ciguatera. Saiba que peixes evitar.
2. Se vir uma zebra, é zebra.
3. O corpo fala. Escute

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